Agosto Lilás: Mês de conscientização da Violência contra a Mulher
Era uma terça à tarde o dia em que chamei ele para um café. Nós nos cruzamos na academia e trocamos olhares, ele parecia um cara legal, disciplinado, educado. Conversamos no instagram e o convidei para sair. Naquela terça foi o nosso primeiro encontro.
Quando nos sentamos frente à frente, a primeira coisa que eu notei foi sua mão direita: estava machucada, bem aquela estética de quem deu um soco, quando os ossinhos salientes dos dedos ficam com a pele vermelha, até meio roxa. Um tempo depois, conversa vai, conversa vem, perguntei o que aconteceu. Ele respondeu que tinha passado por uma situação de estresse e havia socado uma parede. Não bateu em ninguém, “só na parede”...
Me lembro de ter sentido uma sensação ruim quando ouvi isso, um certo embrulho no estômago, talvez minha intuição falando. Pensei que aquilo não dizia muito sobre quem ele era. Afinal, as pessoas podem mudar. “Pessoas podem perder a cabeça de vez em quando”… pensei.
Um ano depois nós estávamos namorando e, em um sábado, brigamos. Eu estava encostada na parede quando ele socou ela bem do lado do meu rosto. Não foi em mim, “foi só na parede”, mas o medo que senti naquele momento foi sinistro. Dez centímetros para o lado e eu não teria mais meu nariz.
Duas semanas depois brigamos, de novo. Eu estava na porta de casa e ele no portão quando, em mais uma explosão de raiva, ele pegou o cadeado e arremessou em mim. Rapidamente me virei e o cadeado atingiu minhas costas, deixando um grande roxo.
Algumas semanas depois, terminamos.
Foi só então que entendi. A mão machucada do primeiro encontro era uma informação sobre como aquela pessoa lidava com a frustração.
É importante dizer isso porque, muitas vezes, ouvimos que alguns homens "são assim mesmo", como se a violência fosse inevitável ou instintiva. Mas não é. Existem inúmeras maneiras de lidar com a raiva, a rejeição e a frustração. Conversar, se afastar por alguns minutos, pedir ajuda, procurar terapia, respirar, ir embora, estabelecer limites.
A violência é uma escolha de comportamento, não uma consequência inevitável de sentir raiva.
Porque a violência raramente começa com a violência. Ela costuma começar de forma silenciosa: no controle disfarçado de cuidado, no ciúme tratado como prova de amor, nas pequenas concessões que fazemos para evitar discussões. Pouco a pouco, vamos diminuindo partes de nós para caber dentro de uma relação. Normalmente o soco é o último capítulo da história, não o primeiro.
Como psicóloga, percebo que muitas pessoas perguntam: "Se fazia mal, por que ela permaneceu?". Talvez a pergunta mais importante seja outra: como aprendemos a considerar certas atitudes como normais?
Eu poderia trazer estatísticas sobre os casos de violência contra a mulher, que são muitos, mas isso todo mundo já sabe. Os números existem e são assustadores. Todos nós os vemos nos jornais. E eles só mostram a frequência de um problema, mas não explicam por que ele continua acontecendo.
E por que acontece, então? Porque o cérebro humano aprende por associações. Aquilo que vivemos repetidamente passa a parecer familiar. E, infelizmente, o familiar nem sempre é saudável. Quem cresce em ambientes onde controle, humilhação ou violência fazem parte das relações pode demorar mais para reconhecer esses comportamentos como sinais de alerta.
Talvez o maior desafio do Agosto Lilás seja justamente esse: ampliar a consciência. Não apenas sobre a violência que já aconteceu, mas sobre os comportamentos que a antecedem e as escolhas que fazemos diante deles. Para olhar com mais atenção para os padrões que repetimos, para os relacionamentos que construímos e para as histórias que contamos a nós mesmos para justificar aquilo que nos machuca.
A forma como lidamos com a frustração diz muito sobre quem somos. Ela pode nos levar ao diálogo ou à agressão, ao respeito ou ao controle, ao acolhimento ou à violência. Sempre existem alternativas de comportamento. A violência nunca é a única resposta possível.
Quando uma pessoa mostra quem ela é, acredite. Não para viver desconfiando de todos, mas para confiar mais na própria percepção da realidade. Nenhum de nós escolhe as referências afetivas que recebeu na infância, mas chega um momento em que podemos escolher o que fazer com elas.
Hoje, quando lembro daquela mão machucada no primeiro café, ela deixou de ser apenas uma lembrança. Tornou-se um lembrete de que a violência quase sempre anuncia sua chegada antes do primeiro soco. Ela começa muito antes. E é justamente nesse 'antes' que mora a possibilidade de mudar a história. Aprender a reconhecer esses sinais talvez seja uma das formas mais importantes de interromper ciclos.
Amanda Rupel




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